Wednesday, March 24, 2010
O que leva essa gente a acompanhar o julgamento do casal Nardoni por 24 horas?. O que os leva a disputar senhas para entrar na sala do juri? O que os leva a se deleitar com os detalhes sobre machucados, gotas de sangue, a dor, o jeito, a cor, a forma da morte da menina? Estão todos ansiosos por mais um detalhe dos peritos, mais uma descrição dos ossos quebrados, mais uma maquete que reproduza a queda do corpo sobre o concreto. E quanto mais ouvem mais se chocam; e quanto mais se chocam mais querem ouvir e ler sobre o crime. Sanguessugas da tragédia humana, querem mais sangue, mais fotos, mais informes técnicos, mais minúcias, mais, mais. Querem sofrer mais. Ah, e como curtem sofrer, chocar-se com a crueldade do crime e com a insensibilidade dos criminosos. Regozijam-se com a maldade dos réus. Ao mesmo tempo, adoram posar de cidadãos inconformados. Diante da câmaras, choram, e se descabelam, e se dizem revoltados. Para justificar tanto prazer com a atrocidade, para legitimizar a curiosidade mórbida pela dor do outro, usam argumentos como justiça e solidariedade. Assim, sentem-se perdoados pela mesquinhez de seus sentimentos mais íntimos. E vamos todos dormir com a consciência tranquila.
Tuesday, March 9, 2010
Por uma agenda feminista
O Dia Internacional da Mulher, de tão babaca, já nem marece comentários. Ficaríamos melhor sem ele. Este ano, então, foi de matar. As comemorações, de uma forma geral, só falaram de saúde da mulher Foi um tal de inaugurar hospital, serviço novo, atendimento especial, como se fôssemos um pedaço de carne doente. A Prefeitura de São Paulo superou-se: promoveu um debate sobre sexualidade e, depois, realizou testes de HIV gratuitamente. Há uma abordagem enviesada e atrasada dos poderes públicos que só vê as mulheres pelo prisma da saúde. Acredita-se que as mulheres das camadas sociais mais baixas - que são o foco dessas políticas - têm necessidades mais urgentes do que discutir sexo e prazer. Então, da-lhe exame pré-natal e mamografia de graça. Trata-se de uma abordagem preconceituosa e reducionista, mas conveniente para manter as mulheres desinformadas.! Independentemente de classe social, todas temos DIREITO E NECESSIDADE de discutir questões como a posição da mulher na sociedade, a desigualdade no mercado de trabalho, o controle sobre o próprio corpo, o direito ao prazer sexual, ao amor e à beleza. Trataram as mulheres como burras, incompetentes e desprovidas de capacidade de pensar e sentir além da cólica menstrual. Despolitizaram os temas que poderiam realmente fazer diferença na conquista dos direitos das mulhers. Está faltando uma agenda feminista neste país.
Friday, February 5, 2010
Enlouqueci
Ontem passei cinco horas dentro do carro. E enlouqueci. Saí do trabalho às 16h30. Esperei na rua por uma hora até que a chuva passasse. E resolvi seguir viagem, porque não aguentava mais fazer hora em shopping center para escapar do trânsito. Perdi a conta dos filmes que já assiti enquanto esperava o trânsito melhorar. Achei que, se enfrentasse duas horas de congestiamento, ainda sairia no lucro: 8 horas da noite estaria em casa.
Levei quatro horas – mais uma de espera, e eu passei cinco horas contínuas no carro, sentadinha, indo e parando, indo e parando, motos cruzando de todos os lado, cruzamentos entupidos, faróis desligados, chuva, gente, bicicleta, carro, carro, carro. A certa altura, comecei a chorar. E chorei duas horas seguidas. Não dá mais, não é? Não dá mais! Chorei de ódio, de raiva, de infelicidade, de impotência com essa vida idiota, com essa cidade maldida, com esse maldito clima, com esse monte de carros de imbecis nas ruas, com esse sofrimento filhadaputa, com essa falta de esperança, com essa sem-saída – do trântido e da bosta da vida cotidiana.
Friday, January 29, 2010
Ué, cadê o pai?
Na primeira entrevista em que menciona o nascimento do primeiro filho, a modelo Gisele Bundchen não falou do pai da criança nenhuma vez. Falou das mamadas, das noites sem dormir, da gravidez, do desejo de adotar outro filho, contou que não tem babá, mas do maridão (quem é ele mesmo?), nenhuma palavra, nadica de nada. Aliás, nem o repórter perguntou. Dá a impressão de que esse bebê só tem mãe ou nasceu de chocadeira. O pai não participa? Não troca fralda? Não está presente? Não acorda de noite para ajudar? Depois as mulheres ficam reclamando que os maridos não fazem nada, não ajudam, não isso, não aquilo. Também pudera. São tratados como meros fornecedores de esperma - e olhe lá. Assim, que homem vira pai?
Wednesday, January 27, 2010
O que é um herói?
Impossível não associar a imagem dos caixões dos militares mortos no Haiti, enfileirados e cobertos com a bandeira brasileira em Brasília, com as homenagens dos Estados Unidos aos seus mortos de guerra, qualquer guerra. Chegamos lá, ao primeiro mundo. Temos nossos próprios heróis militares. E mortos. Os brasileiros se sentiram grandes, fortes, orgulhosos.
Nossos heróis são melhores do que os deles. Os nossos são do bem. Morreram fazendo o bem. Merecem ser heróis. Não era uma guerra de matança, como as americanas, mas uma guerra do lado certo. Sim, porque o Brasil é muito bonzinho. Os brasileiros querem seus heróis, mas os querem bonzinhos, do lado certo, cuidando do pobres e sofredores.
Bem, mas que diferença faz? Estão mortos, não é? São heróis porque morreram. Aliás, só descobrimos que eles existiam depois de mortos. Nacionalismo besta. Herói só é herói se morrer, perder um perna, arrancar um braço, furar o olho.
Wednesday, July 15, 2009
Portas do feminismo
Quando você entra em algum lugar, quem abre a porta? Já prestou atenção nesse detalhe? É você, seu namorado ou uma amiga? Portas desempenham papel fundamental nesse mundo de homens, mulheres e poder.
Trabalho num lugar onde as portas são muito pesadas, de aço. Há tempos observo que, quando estou acompanhada de alguma colega de trabalho e estamos caminhando lado a lado para entrarmos, ela para quando chegamos à porta. Coloca-se ao meu lado, meio na diagonal entre eu e a porta, e espera. É, espera. Espera que eu lhe abra a porta, oras. E eu abro. Uma após outra, dando-lhe passagem.
A coisa foi me cansando. Já houve momentos em que eu fiz a mesma coisa: parei diante das portas, deixei a colega passar por mim e esperei, de braços cruzados, como ela havia feito comigo na porta anterior. Ficamos alí, nós duas, uma olhando para a outra, sem que alguém se dignasse a abrir a porta. Foram longos segundos de indecisão. Eu me esforcei para não abrir a porta, confesso.Finalmente, a outra cedeu e abriu a dita cuja para eu passar. Do lado de lá, continuamos a caminhar lado a lado, retomando a conversa de antes.
Fico me perguntando se ela percebeu o lançe, a disputa entre nós naqueles poucos segundos para ver quem abriria a porta. Talvez não, talvez sim. Uma delas, a quem eu pedi que, por gentileza, carinho e amizade, também abrisse portas para mim de vez em quando alegou dores nas costas para se esquivar de abrí-las. Portanto, ela fazia de propósito: colocava-se numa posição de espera para que lhe abrissem as portas. Eu passei a evitar a companhia dela quando há portas entre nós. Amigas abrem portas umas para outras, acredito.
Que mulheres são essas que sempre esperam que alguém lhes abra a porta? Imagino que sejam mulheres acostumadas a ter um homem do lado. Casadas há muito tempo ou parceiras de homens que adoram abrir portas. Elas, princesinhas. E eles, servos treinados para abrir as portas para as mulheres. Deve ser uma coisa automática, de criação, sei lá.
Será que é isso que faz os homens se sentirem tão perdidos com relação às mulheres? Eles estranham aquelas que não se colocam de lado para que eles lhes abram as portas?.Se não abrem portas não sabem mais como lidar com as mulheres? E é por isso que elas, as princesinhas, esperam que até outras mulheres lhes abram as portas? E é por isso também que as independentes sempre abrem as portas para os outros?
Ah, as portas....
Thursday, June 18, 2009
Silêncio perturbador
O fim da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, decidido pelo STF, inicia um longo período de escuridão e ameaça à democracia. O silêncio ficou mais profundo.
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