Friday, March 26, 2010

Um pouco de silêncio político nos fará bem

Analistas políticos e marqueteiros torcem o nariz para o perfil técnico de Dilma Roussef e José Serra. Dizem, fazendo cara de quem comeu e não gostou, que os dois são frios. Não passam emoção. Parecem gerentões. Eles não são - vá lá - carismáticos. Quem diz disso dos dois enche o peito como se estivesse mandando o pior adjetivo contra um candidato a presidente. Eu, ao contrário da geléia geral, acho ótimo termos dois candidatos sem carisma. Nos últimos anos, tivemos uma overdose do carisma de Lula. O Lula é onipresente. Está em todos os momentos da nossa vida. Fala até de calo no dedo mindinho. Há uma campanha insuportável de massificação de sua imagem. Ele aparece mais do que o Mao naqueles velhos cartazes da China comunista. O pai, o Deus, o santo. Não é mera coincidência. Não aguento mais ligar o rádio e ouvir o Lula falar. Sim, porque ele fala muito, todo dia, toda hora, sobre tudo, sobre todos. E dá-lhe Lula falando; dá-lhe Lula viajando; dá-lhe Lula fazendo isso e aquilo. Arrre...Chega! Fomos (e estamos sendo) submetidos a um bombardeio de Lula. Até a imprensa, que  Lula tanto ofende, faz o jogo dele, dando bola e espaço pra tanta asneira. Então, seja Dilma ou Serra, será um alívio termos um pouco de silêncio político por aqui. Quem sabe, assim, possamos tomar decisões baseadas em discussões técnicas e estudos sérios e competentes. Carisma demais dá cansaço emocional. O Brasil precisa de um pouco de serenidade. Vai dar até pra ouvir rádio.

Wednesday, March 24, 2010

O que leva essa gente a acompanhar o julgamento do casal Nardoni por 24 horas?. O que os leva a disputar senhas para entrar na sala do juri? O que os leva a se deleitar com os detalhes sobre machucados, gotas de sangue, a dor, o jeito, a cor, a forma da morte da menina? Estão todos ansiosos por mais um detalhe dos peritos, mais uma descrição dos ossos quebrados, mais uma maquete que reproduza a queda do corpo sobre o concreto. E quanto mais ouvem mais se chocam; e quanto mais se chocam mais querem ouvir e ler sobre o crime. Sanguessugas da tragédia humana, querem mais sangue, mais fotos, mais informes técnicos, mais minúcias, mais, mais. Querem sofrer mais. Ah, e como curtem sofrer, chocar-se com a crueldade do crime e com a insensibilidade dos criminosos. Regozijam-se com a maldade dos réus. Ao mesmo tempo, adoram posar de cidadãos inconformados. Diante da câmaras, choram, e se descabelam, e se dizem revoltados. Para justificar tanto prazer com a atrocidade, para legitimizar a curiosidade mórbida pela dor do outro, usam argumentos como justiça e solidariedade. Assim, sentem-se perdoados pela mesquinhez de seus sentimentos mais íntimos. E vamos todos dormir com a consciência tranquila.

Tuesday, March 9, 2010

Por uma agenda feminista

O Dia Internacional da Mulher, de tão babaca, já nem marece comentários. Ficaríamos melhor sem ele. Este ano, então, foi de matar. As comemorações, de uma forma geral, só falaram de saúde da mulher Foi um tal de inaugurar hospital, serviço novo, atendimento especial, como se fôssemos um pedaço de carne doente. A Prefeitura de São Paulo superou-se: promoveu um debate sobre sexualidade e, depois, realizou testes de HIV gratuitamente. Há uma abordagem enviesada e atrasada dos poderes públicos que só vê as mulheres pelo prisma da saúde. Acredita-se que as mulheres das camadas sociais mais baixas - que são o foco dessas políticas - têm necessidades mais urgentes do que discutir sexo e prazer. Então, da-lhe exame pré-natal e mamografia de graça. Trata-se de uma abordagem preconceituosa e reducionista, mas conveniente para manter as mulheres desinformadas.! Independentemente de classe social, todas temos DIREITO E NECESSIDADE de discutir questões como a posição da mulher na sociedade, a desigualdade no mercado de trabalho, o controle sobre o próprio corpo, o direito ao prazer sexual, ao amor e à beleza. Trataram as mulheres como burras, incompetentes e desprovidas de capacidade de pensar e sentir além da cólica menstrual. Despolitizaram os temas que poderiam realmente fazer diferença na conquista dos direitos das mulhers. Está faltando uma agenda feminista neste país.